Como um dos temas em voga no Brasil nos últimos dias tem sido a descriminalização do aborto de feto de até três meses, aprovada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em um caso específico, no memorável dia 29 de novembro de 2016, é sobre isso que falarei aqui, dentro da cosmovisão cristã.
Começo falando sobre a ciência. Para ela, onde a vida começa? Não existe uma definição unânime e, sim, correntes que acreditam que a
vida se inicia:
·
Na
fecundação (visão genética), ou seja, no encontro do espermatozoide com o óvulo;
·
Na 3ª
semana de gravidez (visão embriológica), com o estabelecimento da individualidade humana, pois até 12 dias após a fecundação o embrião pode se
dividir, dando origem a duas ou mais pessoas;
·
No início
da atividade cerebral (visão neurológica), cujos sinais, segundo alguns
cientistas, podem aparecer na 8ª semana, outros, na 20ª;
·
No
momento em que o feto passa a ter a capacidade de viver fora do útero (visão
ecológica), ou seja, segundo médicos, se tiver pulmões prontos, o que acontece
entre a 20ª e a 24ª semana de gravidez;
·
Já nos
espermatozoides e óvulos (visão metabólica). Para essa corrente, não existe um
momento único no qual a vida tem início, não há um marco inaugural.
Antigamente, quando ainda não havia tecnologia que possibilitasse o
conhecimento de processos que acontecem no organismo humano, como a fecundação,
comprovando uma gravidez, a mulher se conscientizava de que estava grávida
quando sentia um "chute" no seu interior, em torno das 20 semanas.
Graças à Deus pelo desenvolvimento tecnológico, que hoje nos dá a possibilidade
de ouvir o coração de um feto (de um mês), por exemplo. Aliás, com apenas um
mês e meio ele já tem aparência humana, surgem os primeiros órgãos e já é
possível reconhecer onde estão o coração, o cérebro, os braços e as pernas.
Se a ciência não sabe onde realmente começa a vida, em que o STF estaria
se baseando para liberar a descriminalização do aborto de feto de até três
meses? Nos direitos da mulher à autonomia, à igualdade de gênero, à sua
integridade física e psíquica e a escolhas relacionadas à sexualidade e
reprodução? Esses são os "pontos violados" pela criminalização do
aborto, segundo Luís Roberto Barroso, que votou a favor.
A Constituição Brasileira permite o aborto em caso de estupro, riscos à
mulher e anencefalia. Mas, se entendemos que a vida começa a partir da
fertilização, em qualquer um desses casos, o aborto, na cosmovisão cristã, é
errado sempre, pois, independentemente do que a mulher passou (violência
sexual, gravidez indesejada, etc.), esteja passando (trauma, necessidade
financeira, emocional ou psicológica, etc.) ou possa passar (durante uma
gravidez de risco) - lembrando que essas mulheres precisam de atenção e cuidado
tanto do governo quanto da igreja -, abortar um feto é assassinato, o que é
contrário aos princípios bíblicos.
"Mas
Deus perdoa quem fez isso!". Isso é óbvio! Isso é indiscutível. Deus é
gracioso e apaga todos os nossos pecados a partir do momento em que os
confessamos e nos arrependemos. Ele perdoa a mulher que abortou, o médico que
fez o procedimento, o homem que violentou, desde que todos eles reconheçam seus
erros e busquem arrependimento genuíno. Disso não temos dúvidas. Deus perdoa
todos aqueles que se arrependem diante dEle.
"Não
podemos julgar quem fez isso". Isso também é óbvio. Quem somos nós para
julgarmos alguém que JÁ FEZ? Quem julga é Deus. Não temos esse direito. Mas uma
Palavra nós temos (e precisamos liberar) para quem PENSA em fazer isso. Temos
uma "Lei", a "Lei do Amor", que é maior do que a lei desta
terra. Se alguém chegar diante de nós cristãos com esse pensamento de abortar,
o nosso conselho, de acordo com aquilo que Deus diz em Sua Palavra, deve ser
"não faça".
Agora, se
a pessoa decidir fazer, quem sou eu para impedir? Decisões são pessoais. Vou
orientar, aconselhar, tentar ajudar, mas não posso obrigar ninguém a fazer a
escolha certa. E é Deus quem julgará, e não eu. Mas ser a favor do aborto - em
qualquer circunstância -, não dá. Todo cristão (pelo menos) precisa entender
isso.
Deus é fiel, sim, para perdoar a todos, mas a Sua fidelidade no perdão
não anula a nossa responsabilidade diante da Palavra dEle. A graça produz em
nós um senso de zelo por tudo aquilo que Ele mesmo estabeleceu como a Verdade.
Não é questão de extremismo. Se formos liberais, concordaremos com muitas
coisas que vão contra os princípios que pregamos, por exemplo, a pena de morte.
Todos precisam entender: "O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer
à sepultura e faz tornar a subir dela" (1 Samuel 2.6). Nenhum ser humano
tem o direito de tirar a vida de ninguém, seja dentro ou fora do útero. Só
Deus.
"Meu corpo, minhas regras"? Sério mesmo? O feto é outro corpo.
É outro humano, a partir do momento que tem um código genético, define a escola
genética, segundo Callahan (1970, citado por BARCHIFONTAINE, 2009, p. 50), ou
seja, desde a fecundação. "Crescimento e desenvolvimento são simplesmente
a explicitação do que está inscrito no código genético desse indivíduo particular"
(BARCHIFONTAINE, 2009, p. 50).
"Mas e se ela não quiser ficar com o bebê?". Ela pode esperar
o nascimento e entregar a criança para adoção, um direito que toda gestante
tem, assegurado pelo parágrafo único do artigo 13
do Estatuto da Criança e do Adolescente. No Brasil, mais de 35 mil pessoas
estão na fila para adotar. Muitas têm o sonho de exercer a paternidade ou a
maternidade, mas não podem, às vezes, por questões biológicas, e decidem pela
adoção. Enquanto isso, muitas crianças têm sido assassinadas diariamente dentro
dos ventres.
Adoção no Brasil é burocrática? Pode até ser. Muitas crianças vivem anos em abrigos esperando liberação do governo para serem adotadas? Sim. É fácil? De jeito nenhum. Mas justifica o aborto? Jamais.
Então, falando sobre o posicionamento que todo cristão deve ter diante
desse assunto, concluo citando o versículo 37 de Mateus 5: “Seja o seu ‘sim’,
‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do Maligno".
A Pré-História passou. A Idade Antiga Passou. A Idade Média passou. A
Idade Moderna passou. Mas a Palavra de Deus é a mesma. Não mudou e nunca
mudará. Estamos na Idade Contemporânea, ou Pós-Modernidade - como quiser.
Muitas tecnologias foram desenvolvidas e novas surgiram. No meio cristão, desde
a maneira dos "crentes" se vestirem até a liturgia de cultos, muita,
muuuita coisa está diferente de como era (só) dez anos atrás, por exemplo. Mas
os princípios não mudaram. A responsabilidade não mudou. A necessidade de se
ter o caráter de Cristo permanece. E Ele amou. E ama. E é Deus que chama
pessoas antes mesmo de formá-la no útero de uma mulher. E essas têm o direito
de ter direitos, de ter uma "voz".
"Antes de formá-lo no ventre Eu o escolhi; antes de você nascer, Eu
o separei e o designei profeta às nações". (Jeremias 1.5)
*Referência: Artigo "Bioética no início
da vida", de Christian de Paul de Barchifontaine
:: Dayane Nascimento

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