segunda-feira, dezembro 12, 2016

Aborto na cosmovisão cristã


Como um dos temas em voga no Brasil nos últimos dias tem sido a descriminalização do aborto de feto de até três meses, aprovada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em um caso específico, no memorável dia 29 de novembro de 2016, é sobre isso que falarei aqui, dentro da cosmovisão cristã.

Começo falando sobre a ciência. Para ela, onde a vida começa? Não existe uma definição unânime e, sim, correntes que acreditam que a vida se inicia:

·  Na fecundação (visão genética), ou seja, no encontro do espermatozoide com o óvulo;

·  Na 3ª semana de gravidez (visão embriológica), com o estabelecimento da individualidade humana, pois até 12 dias após a fecundação o embrião pode se dividir, dando origem a duas ou mais pessoas;

·  No início da atividade cerebral (visão neurológica), cujos sinais, segundo alguns cientistas, podem aparecer na 8ª semana, outros, na 20ª;

·  No momento em que o feto passa a ter a capacidade de viver fora do útero (visão ecológica), ou seja, segundo médicos, se tiver pulmões prontos, o que acontece entre a 20ª e a 24ª semana de gravidez;

·  Já nos espermatozoides e óvulos (visão metabólica). Para essa corrente, não existe um momento único no qual a vida tem início, não há um marco inaugural.

Antigamente, quando ainda não havia tecnologia que possibilitasse o conhecimento de processos que acontecem no organismo humano, como a fecundação, comprovando uma gravidez, a mulher se conscientizava de que estava grávida quando sentia um "chute" no seu interior, em torno das 20 semanas. Graças à Deus pelo desenvolvimento tecnológico, que hoje nos dá a possibilidade de ouvir o coração de um feto (de um mês), por exemplo. Aliás, com apenas um mês e meio ele já tem aparência humana, surgem os primeiros órgãos e já é possível reconhecer onde estão o coração, o cérebro, os braços e as pernas.

Se a ciência não sabe onde realmente começa a vida, em que o STF estaria se baseando para liberar a descriminalização do aborto de feto de até três meses? Nos direitos da mulher à autonomia, à igualdade de gênero, à sua integridade física e psíquica e a escolhas relacionadas à sexualidade e reprodução? Esses são os "pontos violados" pela criminalização do aborto, segundo Luís Roberto Barroso, que votou a favor.

A Constituição Brasileira permite o aborto em caso de estupro, riscos à mulher e anencefalia. Mas, se entendemos que a vida começa a partir da fertilização, em qualquer um desses casos, o aborto, na cosmovisão cristã, é errado sempre, pois, independentemente do que a mulher passou (violência sexual, gravidez indesejada, etc.), esteja passando (trauma, necessidade financeira, emocional ou psicológica, etc.) ou possa passar (durante uma gravidez de risco) - lembrando que essas mulheres precisam de atenção e cuidado tanto do governo quanto da igreja -, abortar um feto é assassinato, o que é contrário aos princípios bíblicos.

"Mas Deus perdoa quem fez isso!". Isso é óbvio! Isso é indiscutível. Deus é gracioso e apaga todos os nossos pecados a partir do momento em que os confessamos e nos arrependemos. Ele perdoa a mulher que abortou, o médico que fez o procedimento, o homem que violentou, desde que todos eles reconheçam seus erros e busquem arrependimento genuíno. Disso não temos dúvidas. Deus perdoa todos aqueles que se arrependem diante dEle.

"Não podemos julgar quem fez isso". Isso também é óbvio. Quem somos nós para julgarmos alguém que JÁ FEZ? Quem julga é Deus. Não temos esse direito. Mas uma Palavra nós temos (e precisamos liberar) para quem PENSA em fazer isso. Temos uma "Lei", a "Lei do Amor", que é maior do que a lei desta terra. Se alguém chegar diante de nós cristãos com esse pensamento de abortar, o nosso conselho, de acordo com aquilo que Deus diz em Sua Palavra, deve ser "não faça".

Agora, se a pessoa decidir fazer, quem sou eu para impedir? Decisões são pessoais. Vou orientar, aconselhar, tentar ajudar, mas não posso obrigar ninguém a fazer a escolha certa. E é Deus quem julgará, e não eu. Mas ser a favor do aborto - em qualquer circunstância -, não dá. Todo cristão (pelo menos) precisa entender isso.

Deus é fiel, sim, para perdoar a todos, mas a Sua fidelidade no perdão não anula a nossa responsabilidade diante da Palavra dEle. A graça produz em nós um senso de zelo por tudo aquilo que Ele mesmo estabeleceu como a Verdade. Não é questão de extremismo. Se formos liberais, concordaremos com muitas coisas que vão contra os princípios que pregamos, por exemplo, a pena de morte. Todos precisam entender: "O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela" (1 Samuel 2.6). Nenhum ser humano tem o direito de tirar a vida de ninguém, seja dentro ou fora do útero. Só Deus.

"Meu corpo, minhas regras"? Sério mesmo? O feto é outro corpo. É outro humano, a partir do momento que tem um código genético, define a escola genética, segundo Callahan (1970, citado por BARCHIFONTAINE, 2009, p. 50), ou seja, desde a fecundação. "Crescimento e desenvolvimento são simplesmente a explicitação do que está inscrito no código genético desse indivíduo particular" (BARCHIFONTAINE, 2009, p. 50).

"Mas e se ela não quiser ficar com o bebê?". Ela pode esperar o nascimento e entregar a criança para adoção, um direito que toda gestante tem, assegurado pelo parágrafo único do artigo 13 do Estatuto da Criança e do Adolescente. No Brasil, mais de 35 mil pessoas estão na fila para adotar. Muitas têm o sonho de exercer a paternidade ou a maternidade, mas não podem, às vezes, por questões biológicas, e decidem pela adoção. Enquanto isso, muitas crianças têm sido assassinadas diariamente dentro dos ventres.

Adoção no Brasil é burocrática? Pode até ser. Muitas crianças vivem anos em abrigos esperando liberação do governo para serem adotadas? Sim. É fácil? De jeito nenhum. Mas justifica o aborto? Jamais.

Então, falando sobre o posicionamento que todo cristão deve ter diante desse assunto, concluo citando o versículo 37 de Mateus 5: “Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do Maligno".

A Pré-História passou. A Idade Antiga Passou. A Idade Média passou. A Idade Moderna passou. Mas a Palavra de Deus é a mesma. Não mudou e nunca mudará. Estamos na Idade Contemporânea, ou Pós-Modernidade - como quiser. Muitas tecnologias foram desenvolvidas e novas surgiram. No meio cristão, desde a maneira dos "crentes" se vestirem até a liturgia de cultos, muita, muuuita coisa está diferente de como era (só) dez anos atrás, por exemplo. Mas os princípios não mudaram. A responsabilidade não mudou. A necessidade de se ter o caráter de Cristo permanece. E Ele amou. E ama. E é Deus que chama pessoas antes mesmo de formá-la no útero de uma mulher. E essas têm o direito de ter direitos, de ter uma "voz".

"Antes de formá-lo no ventre Eu o escolhi; antes de você nascer, Eu o separei e o designei profeta às nações". (Jeremias 1.5)

*Referência: Artigo "Bioética no início da vida", de Christian de Paul de Barchifontaine

:: Dayane Nascimento